sobre o dois de outubro de dois mil e dez

Uma fila grande, gente encasacada. Um sistema de controlo de entradas algo estranho. Uma senhora vê o seu bilhete dar luz verde na máquina, sinal de que tinha sido uma das sortudas, com bilhete para plateia em pé, que ia ver o concerto na “elipse”. Vemos a senhora a entrar na plateia de uma arena enorme, que creio que normalmente é palco de jogos da NBA. Está tudo muito escuro e vazio, à direita há um palco, colunas e que mais. Voltamos a vê-la já dentro do espaço entre um corredor que vem do palco e o próprio palco. O corredor (não sei qual é o termo técnico da coisa, aqui vai ser corredor, deal with it) é baixo e faz uma forma de elipse, voltando ao palco. Não sei se me estou a explicar bem, mas a senhora está nesse espaço entre palco e extensão de palco. Ou seja, rodeada de palco. E a senhora está ao telefone e diz, muito feliz: “We’re in! We’re in the elipse!!”.

Durante muitos anos (mais ou menos um terço da minha vida) foi assim que imaginei que seria comigo. A cena é real (ou pelo menos é assim que me lembro dela) e aparece nos extras de uma gravação ao vivo de um concerto dos U2, em 2005. Ou terá sido em 2004? Não sei. O DVD saiu pela altura do Natal de 2005, que foi quando o recebi, prenda do meu irmão. Tinha 12 anos.

Estava na biblioteca do liceu, em mais uma hora de almoço passada nos computadores. Devia estar a chover, se não estávamos lá fora. A Bárbara, no PC atrás de mim, disse: “a Teresa vai gostar disto”. Fui lá perguntar o que era. Homepage do site da Blitz, fotografia grande da banda da minha vida, e um título de notícia que confirmava a sua vinda a este país à beira mar plantado. Li e reli cada palavra até acreditar, fui para a aula de Alemão com sérios problemas de controlo. 2 de Outubro de 2010, ia acontecer. Os dias seguintes foram de dramas e burocracias de quantos bilhetes, onde e como. A solução, num qualquer dia de Outubro de 2009, foi jantar nos Armazéns do Chiado e… ficar por lá. Lembro-me de que segui directa das Caldas para Lisboa, e que a última aula do dia foi de História. Estava super preocupada, perguntava ao professor Rui: “ora, 8 a cada um, aquela Fnac tem 300 bilhetes, 8 a cada um… Se todos comprarem 8, são uns 40, não é? Será que às 21h de hoje já lá estão 40 pessoas? Não, pois não? NÃO, POIS NÃO??”. O professor riu-se, e eu também, agora que me lembro disto. Estavam duas pessoas, ao início da noite, já com uma lista e sistema montado. De duas em duas horas havia chamada, e às 10h do dia seguinte já a fila chegava à Praça do Município (ou, vá, ao final da rua). Fui a 30ª pessoa a entrar. Depois esperei um ano e sonhei ainda mais com aquela cena dos extras do DVD de Chicago.

Era uma aula de Psicologia e eu a escrever a setlist provável do dia seguinte no meu caderno. “Vou ouvir esta, e esta, e esta!!! Eles estão a tocar esta!! Dizem que os efeitos nesta são brutais!! E o ecrã desce nesta!! E as luzes!! São capazes de fazer snippet daquela!!”. Lembro-me do “bom fim-de-semana!” gozão da Rita. Pus a MLK em loop e tentei adormecer. Sleep tonight and may your dreams be realized. Sei que aquele sleep é eterno, o sonho um bocado mais digno, e que eu nada sou ao lado de Luther King, mas naquela noite não poderia haver outra canção. Cheguei ao estádio por volta das 11h do dia seguinte, e esperei. Para quem já tinha esperado meia-dúzia de anos, umas horas não iam custar nada, né? #sqn, são as que custam mais.

Lembro-me do casal à minha frente ter comprado o Expresso e ter decidido partilhar as revistas e suplementos comigo, sem eu ter dito nada. Lembro-me do grupo de Braga que se juntou atrás de mim que me ofereceu desde comida a boleia para casa. De detectores de metais e de outra fila e outra revista intensiva, das entradas serem por vagas e de uma ter acabado mesmo antes de mim. De ter ficado de olhos postos no segurança à espera de um sinal, enquanto ao meu lado um português falava a um inglês sobre o José Mourinho e o FC Porto. Não me lembro do sinal do segurança mas lembro-me de subir as escadas de acesso à bancada a correr, de chegar à bancada, a do fundo oposta ao palco, e pensar “que raio estou a fazer aqui em cima??”, de ver as pessoas a descerem a bancada em direcção ao relvado. “Ah, subir para descer, boa!”, nunca fui fã de exercício, muito menos se envolver escadas. Lá desci aqueles degraus pequenos e baixinhos com uma vozinha na minha cabeça a gritar “vais cair, vais-te partir toda e não vais ver concerto nenhum”. Calei-a com o meu pé direito a bater na rampa de metal que ligava a bancada ao relvado. O pé esquerdo já pisou relva. Olhei em frente e ali estava, a nave espacial ridiculamente gigante. “Sempre em frente”, pensei. Corri e corri e corri e dei com pessoas em frente àquele corredor circular paralelo ao palco (também ele circular, pois, esqueci-me de dizer que a tour se chamava 360º?). Saltei desenfreadamente a tentar perceber se havia espaço do outro lado, dentro do agora chamado “inner circle“. Havia muito espaço. Corri para o lado direito, onde três cancelas tentavam abrandar a correria (e enganar, assim aquilo dava um ar de interdito, felizmente i knew better). Lá passei e virei à esquerda meio a correr meio a tremer. De repente, o Estádio de Coimbra virou a arena de Chicago, o sol das cinco da tarde no frio e escuro que vi na minha tv mil e uma vezes, mas as mãos na cabeça eram minhas e o telefone que tocava também. A minha mãe perguntava-me se já tinha entrado. “Sim, estou cá dentro. Mesmo dentro. Dentro do palco”. O destino às vezes arma-se em engraçado, hein?

O que aconteceu a seguir foi um tentar acalmar-me e fazer uma escolha racional de onde ver o concerto, optar por ficar mais longe do palco mas perto do corredor, de modo a conseguir ver o ecrã e tudo o mais.  Aperceber-me de que estava praticamente sem água e com pouca comida, do quão estranho é estar no meio de um relvado de um estádio de futebol, do quão pequeninas parecem as pessoas sentadas nas bancadas. Depois vieram mais e mais pessoas e tornou-se difícil respirar, depois tive fome e sede e pensei que se calhar o melhor era evitar cair para o lado e sair dali de modo a poder ver tudo sem problemas. Depois lembrei-me que a teresa de 12 anos ia roubar o time-turner à Hermione e matar-me de uma forma muito violenta se eu fizesse isso. Depois tocou a “Dog Days Are Over”. Lembram-se de dizer que esta música é-me especialmente especial? Pois que é. Porque antes dos U2 entrarem em palco tocava a “Space Oddity”, já em modo de introdução. Oficialmente, começava aí o concerto. Mas antes do ground control to major tom tocava aquela. Os mais nerds sabem a playlist toda provavelmente, eu sabia só que a Florence ia ser a minha senha. E foi a minha e a de muita gente.

Eles aparecem no ecrã a irem para o palco e eu não os vejo em lado nenhum e concluo, do alto dos meus 17 anos, que não existem. Pois claro, só na minha cabeça. Até que o Larry se senta na bateria e coloca os in-ears muito calmamente. E o Adam tira o baixo do suporte e pega nele. Como assim? Como assim sois tão banais? Como assim não passais de meros mortais? Andei eu tantos anos a venerar simples seres humanos? Depois lá vi o Edge e concluí que não, não são simples seres humanos. Como sempre, lembro-me mais do antes do que da coisa propriamente dita. Vejamos. O concerto começou com um instrumental novo porque eles podem. “Beautiful Day”, aquela música que estava naquele disco que a mãe tinha lá em casa e que punha a tocar no sótão enquanto eu pegava naquele rádio de brincar que tinha um mini microfone que eu fingia encaixar no gancho daquele coiso para abrir janelas do sótão e fazia a minha melhor pose de roquestar e gritava qualquer coisa tipo “biuréful dei!”. Essa canção, foi nessa que o moço cantou pela Briosa no final. E mesmo quem não simpatiza particularmente com a Académica de Coimbra sentiu um apertozito no coração. Que veio depois? Não sei, juro que não me lembro de muito. Coisas random: as pontes a passarem de um lado para o outro (o corredor era paralelo ao palco ou seja havia mini pontes a ligar o palco ao corredor que iam mudando de sítio), a certa altura tive o Bono e o Edge por cima de mim (a preposição aqui é muito importante). Por falar em Bono e Edge numa ponte: o solo da “Until The End Of The World”!!!!?? Toda a canção, no fundo.  O ecrã que subia e descia e quando desceu na “City Of Blinding Lights” e !!!!!!! não deu para aguentar. A “WALK ON”!!!!??? e o tributo à Aung San Suu Kyi (que foi libertada no mês seguinte), e o snippet da “You’ll Never Walk Alone”?! A “MLK” e a tecas a chorar dois Mississippis e meio. Da fofura da “North Star” e da “In a Little While”?? (tudo o que for do ATYCLB dá cabo de mim, fácil). E a “Miss Sarajevo”???? Nem vamos falar da “One” não é, não vale a pena. E a ligação à Estação Espacial Internacional com aquele astronauta a citar Bowie??? É preciso mais alguma coisa???? Depois houve o sentir aquele estádio inteiro a saltar na “Where The Streets Have No Name” e na “Elavation”, ou a cantar os coros na “With Or Without You” e na “Moment Of Surrender”. E o Bono na “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me” pendurado no microfone caído dos céus (nem vou tentar explicar) e eu a pensar: “48 anos e há uns meses estava quase paralisado da cintura para baixo, okay” (Engraçado que este ano seria tipo “53 e há uns meses ia ficando sem braço”, lóle). Todas as canções e todos os milésimos de segundo foram inacreditáveis naquela noite. Aliás, ainda hoje são.

Palavras para a importância daquela banda ainda não tenho, talvez um dia as arranje. Sei que falo aqui de muita banda e de muitos concertos mas serve este testemunho demasiado longo e pouco informativo para deixar bem claro que banda só há uma e concerto também. Espero que não faltem 5 anos para o próximo.

as únicas fotos que consegui tirar, sem zooms nem filtros.
as únicas fotos que consegui tirar, sem zooms nem filtros.
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