No dia em que eu descobri o Roque Popular.

Mais um desafio de aula. Desta vez, uma crónica inspirada na saga do “no dia em que eu…“. Já escrevi isto há umas semanas mas tem-me faltado coragem para o divulgar. Foi dos textos mais fáceis e ao mesmo tempo mais difíceis que já escrevi e admito que ainda não estou completamente satisfeita com ele. De qualquer forma, aqui está. Sejam mansinhos.


Em qualquer outra altura do ano, a vila do Crato, em pelo alto Alentejo, é sinónimo de vida pacata onde reina a calma e a serenidade. Tal não se verifica, no entanto, nos últimos dias de Agosto de cada ano. É tempo de Festival do Crato – que até há uns anos tinha um nome bem mais adequado à realidade: Feira de Artesanato e Gastronomia – e a vila do concelho de Portalegre é invadida por turistas, estrangeiros, famílias de perto e de longe e muita juventude que aproveita o campismo gratuito para se despedir do verão em grande.  O ano de 2013 não foi excepção e eu própria rumei com a minha família até Reguengo, uma pequena aldeia em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede, para uns dias de férias à boleia da festa no Crato.

Aproveitei para comprar o passe para os quatro dias do festival, na esperança de conseguir por lá passar todas as noites, pois todas as noites havia algo que me interessava. Primeiro Carlos do Carmo e Os Azeitonas, depois Melech Mechaya num dia e GNR noutro, e ainda Diabo na Cruz na última noite. O primeiro dia serviu para fazer 204km de estrada e acabar de bifana na mão já na vila alentejana. Depois de aguentar o tempo de palco dado à filarmónica da escolinha, ao rancho de terriola ali do lado, ao miúdo cuja maior glória foi ter participado no festival da canção júnior há uns anos e que quer claramente ser o próximo David Carreira, lá chegou finalmente a voz de Carlos do Carmo que abriu caminho para a festa d’Os Azeitonas e um final de noite (já início de madrugada) que fez valer a espera.

Os dias seguintes foram de passeio por uma zona rica em muito mais do que festas de final de verão. Passámos por Marvão, onde subi às muralhas e lá, de olhos postos naquela paisagem verde e castanha e aparentemente infinita, repeti para mim mesma a frase que já há uns tempos me tinha habituado a entoar: “esta é a última vez que aqui vou estar”. Tentava habituar-me à ideia de ir para longe e não voltar, de uma forma provavelmente demasiado dramática e adolescente, é certo, mas foi a única que na altura encontrei. Tinham-me dito, semanas antes, que a minha partida para erasmus em Itália (que ia acontecer em inícios de Setembro) não era nada uma brincadeira de uns meses e que daqui a nada já estava de volta, como eu me convencia a mim mesma e a muitos familiares que se mostravam preocupados no momento da despedida. Era antes, diziam-me, “um ensaio, para daqui a uns anos ser a sério”. A frase assustou-me especialmente pela surpresa com que a recebi. Eu, que desde os tempos de liceu falava em ir lá para fora. Eu, que já há muito sonhava que fosse o que fosse eu a fazer da vida ia ser lá fora. Eu que acreditava que as oportunidades estavam todas lá fora, que o mundo era lá fora, que o bom estava lá fora. Ali estava eu, sem conseguir perceber se o que me agarrava a Portugal naquela muralha em Marvão era só conformismo ou algo mais do que isso.

Os dias continuaram entre passeios, enquanto eu tentava focar-me mais na diversão em família e em ignorar esse pequeno inconveniente que era, na altura, o ir embora. No último dia, voltei ao Crato pela última vez para poder presenciar o concerto dos Diabo na Cruz. Banda da qual já tinha ouvido falar muito vagamente, através de amigos e da rádio universitária para a qual co-coordenei a playlist nesse verão.

O que aconteceu ao certo durante aqueles minutos não sei precisar. Só me lembro de adorar desde o primeiro segundo e de olhar muito admirada para o palco, quase tão confusa como os holandeses do clube de fãs dos Skunk Anansie (grupo que tocava mais tarde nesse dia) da primeira fila. “Mas como é que eu nunca tinha ouvido isto?”. A certa altura, o vocalista apresentou uma canção que dizia ser sobre a emigração. Chamava-se “Fronteira”. E ali estava eu, numa vila algures no interior alentejano, rodeada de pessoas desconhecidas, já praticamente rendida a uma banda cujo propósito é a portugalidade, que fala sobre de onde eu sou, que soa a de onde eu venho, e que me canta ali, naquele momento, o medo do ir e do nunca mais voltar. Ai de mim, não faço nem ideia…

Saí do Crato a cantarolar melodias de Diabo na Cruz, que me tinham ficado na cabeça desde o concerto do dia anterior ou que talvez já lá estivessem desde sempre. Chegada a casa atirei-me ao Spotify e mergulhei nos dois discos e um EP que por lá estavam disponíveis. Um desses longa-duração, o mais recente, chamava-se Roque Popular (expressão que muito bem define a música de Diabo na Cruz) e abria com uma “Bomba Canção” que deixava claro que por estes lados não se cantava só o país dos castelos e bailes de verão: que bonito é Portugal de candeia na mão, sentado no sofá em frente à televisão. Foi com esse disco e nesses dias que, entre pilhas de roupa e listas de essenciais, pensei o meu país enquanto me preparava para o deixar. Foi ao som de “Luzia” que fui buscar alguma da força que tinha perdido entre meses de candidaturas, bolsas, declarações, formulários e formalidades, enquanto canções como “Baile na Eira” ou “Pioneiros” me davam a coragem que tanto ia precisar. Cheguei ao Virou! e ao EP Combate já em Trieste, a 2 502km de casa. Durante os meses que se seguiram, fui descobrindo um Portugal que tinha esquecido e ignorado ao longo dos anos. As melodias que cantarolava traziam-me à cabeça imagens de um país que percorri com os meus pais durante as férias de verão, as ruelas de Óbidos, o areal do Baleal, o calor seco de Ferreira do Alentejo ou as linhas férreas das aventuras em intra-rails. Era voltar a casa sem ter de lá ir, mas acima de tudo, era um redescobrimento de uma identidade que entretanto tinha perdido algures. Algures entre o país do qual me falavam nas salas de aula: sem oportunidades, governado por quem por nós nada fará, tomado pela troika, sem rumo nem nada mais que os dramas dos noticiários da TV e os mesmos três grupos de pimba em todos os programas de domingo à tarde.

Ao mesmo tempo, aprendia que o lá fora está longe de corresponder ao sonho da miúda de liceu. Que lá fora há tanto bicho mau como há cá dentro, que lá fora as oportunidades também são escassas e as coisas também não estão assim tão bem. E foi lá fora, a partilhar experiências e a conhecer gente de todo o mundo, que mais aprendi e melhor percebi de onde eu venho e quem eu sou.

Podia tentar analisar detalhadamente todos os aspectos técnicos e formais que compõem aquilo que os Diabo na Cruz tão bem fazem: quebrar barreiras entre o povo e as suas raízes, entre a música popular e a sua tradição . Mas, para mim, o Roque Popular não se resume a meras teorias musicais e prende-se mais à ideia de construção de novas leituras sobre aquilo que já conhecemos ser nosso, de (re)aprendizagem sobre quem somos, enquanto construímos aquilo que queremos ser.

2015-03-02 02.04-horz

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8 thoughts on “No dia em que eu descobri o Roque Popular.

  1. O texto está maravilhosamente escrito e, o mais estranho de tudo, é que me revejo em várias linhas. Estar cá fora tem muitas coisas boas mas, às páginas tantas, e principalmente quando reaprendemos a amar o que é nosso, o coração vai andando ali a balançar, com saudades do que ficou para trás!

    • Obrigada :)) Foi exactamente disso de que me apercebi. Adorei a experiência e repetia-a sem pensar duas vezes, mas, sinceramente, só me ajudou a perceber que é aqui que eu pertenço.

  2. Agradeço estas palavras do fundo do coração. Sou um fã incondicional de Diabo na Cruz há vários anos, constituindo eles uma prova (para isso contribuindo, em simultâneo) da singularidade da cultura portuguesa, estas raízes que fortificam o ser, o orgulho, a vontade e impingem o voluntário e inexorável amar deste sublime reduto – o nosso cantinho.

    Não pude deixar de fazer acompanhar o texto da “Fronteira” e de receber com toda a normalidade aquele tão terno arrepio.

  3. De há uns tempos para cá tenho andado a ouvir Diabo na Cruz. “Luzia” e “Fronteira” deixam-me com pele de galinha e lágrimas nos olhos.
    Obrigada por me fazeres ler aquilo que andava a sentir, mas que não estava a conseguir pôr no papel.

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