Um dia no showbizz d’Os Azeitonas

Aqui fica o meu trabalho final do módulo de Géneros Jornalísticos do curso de Jornalismo e Crítica Musical da ETIC.

São 22h30 e o Casino de Lisboa está intransitável. Hoje, segunda-feira, 24 de Novembro, há mais uma noite de concertos Arena Live. O local do concerto é algo pouco habitual: no topo de um restaurante circular, com corredores de mesas que vão rodando à sua volta. Posto isto, não há muito espaço para o público, que se vai acumulando em redor do restaurante e já ocupa todo o hall de entrada do Casino. É difícil chegar às escadas rolantes e mesmo assim, quando finalmente chegamos aos pisos superiores, já não há espaço para ninguém na zona perto das varandas sobre o Arena Lounge. Como se ouve nas colunas, hoje, a noite é d’Os Azeitonas e, a julgar pela afluência do público, a expectativa é grande.

Termina aqui a maior tournée d’Os Azeitonas. Mais de 40 datas pelo país inteiro entre Março e Novembro preencheram a agenda de Marlon (voz), Nena (voz), AJ (guitarra e voz), Salsa (teclas, acórdeão e voz) e dos mais de 15 músicos e técnicos que fazem parte da comitiva. Um grupo de pessoas que, pelo meio-dia, dez horas antes do espectáculo, já ultimava os preparativos para o concerto.

Habitualmente, viajam todos no mesmo autocarro, mas hoje, dadas as características especiais do espectáculo (não é comum tocarem em estabelecimentos comerciais com horas de abertura definidas), os músicos foram chegando a horas diferentes para o chamado teste de som. Uma tarefa que, por muito rotineira que seja, hoje também tem dificuldades acrescidas: a sala é ampla e de vidro e, por isso, não tem a acústica habitual de uma sala de espectáculos, e o público espalhar-se-á mais para cima do que para frente ou para os lados, como seria habitual. «É um palco completamente diferente do que já tivemos antes por isso acho que vai ser engraçado», comenta Nena (Luísa Barbosa). Um ambiente algo sui generis, como apontou AJ (Miguel Araújo) mais tarde, também tendo em conta que os sopros (dois saxofones e um trompete) e o percussionista, Megre Beça, estarão num outro palco, ligado ao Arena Lounge por uma pequena ponte. Uma espécie de buraco na parede traseira ao restaurante, desde logo apelidada de «Margem Sul».

Por entre acordes soltos de guitarra, testes de saxofone e bateria aqui ou ali, ouviam-se mais termos técnicos do que musicais. Pontuados pelo som de cabos a ligar e desligar, os testes de luzes iam pintando o espaço de várias cores. O Casino, esse, parece um Casino fantasma, com as suas grandes salas apenas ocupadas pelas luzes das máquinas de jogo que piscavam como que a chamar atenção de quem lá não está.

«Incrivelmente, este concerto, embora seja o último da tournée, para mim, pelo menos, [é] um bocado como um revival, já», conta Salsa (João Salcedo). De facto, à chegada à zona do palco, são muitos os abraços e comentários típicos de um reencontro entre amigos («tens dado umas corridinhas, Roger, estás mais magro!»). Um ambiente que, segundo Marlon (Mário Brandão), será bem propício para o espectáculo de logo à noite: «o pessoal está com muita pica.»

Após uma intro tape que apresenta a banda, ouve-se “Pander”. Canção de abertura do último disco de originais (AZ, 2013) que dá também nome ao documentário de estrada lançado no youtube há cerca de um ano. Trata-se do baptismo de um convívio e camaradagem que se vive dentro daqueles que, em tournée, integram a equipa d’Os Azeitonas. O autocarro que os transporta de espectáculo a espectáculo «é como se fosse uma pequenina casa com rodas. Foi importantíssimo. Tem a sua mesinha, dá para jogar às cartas… exige mais convívio», explica Nena. O facto de ser uma banda tão numerosa fazia com que as deslocações fossem feitas em sub-grupos em várias carrinhas e que, portanto, um trompetista não tivesse talvez grande relação com um roadie, por exemplo. Como conta AJ: «com o autocarro foi uma coisa engraçada porque as relações ficaram muito homogéneas, toda a gente se dá bem com toda a gente. Cimentou muito as amizades entre as pessoas todas, foi realmente incrível». Hoje em dia, já é difícil imaginar Os Azeitonas apenas como quatro músicos, dada à envolvência que acaba por haver com todos os restantes membros da “família”. «A camaradagem que existe neste grupo é fora do normal», indica Marlon, lembrando que muitos músicos tocam também com outras bandas, mas sentem um ambiente especial com Os Azeitonas.

Já passa das 23h quando o ambiente no Arena Lounge se acalma. Depois das festivas “Lisboa Não é Hollywood” e “Showbizz”, o palco fica entregue a Salsa e Nena para a interpretação daquela que é uma das canções mais queridas do público d’Os Azeitonas. «Desenhos Animados (Nunca Acaba Mal)» é cantado bem alto por muitos dos presentes, que só amanhã vão descobrir que esta é afinal a canção que servirá de single ao novo disco da banda, gravado ao vivo no Coliseu do Porto, com edição prevista para Março do ano que vem. A doce balada é não só acompanhada pelo coro de vozes que enche o recinto, mas também pelo sempre precioso solo de saxofone de João Martins, um dos três Hornsters (ou Hamsters, como indica a carinhosa alcunha). Segue-se-lhe mais uma balada, esta recebida quase em euforia pelos presentes. «Anda Comigo Ver os Aviões» foi a canção que, dois anos depois de ter sido lançada, acabou por catapultar o grupo para um sucesso inesperado, mas merecido. Afinal, o fenómeno Aviões deu-se há já dois anos e hoje, com disco novo e duas vastas digressões, Os Azeitonas souberam agarrar a oportunidade e provar que, de facto, a aposta vale a pena. Como explicou João Martins: «é o resultado do trabalho de uma banda que merece claramente este momento.»

Testado o som e as canções para mais logo, estava na hora de seguir para o almoço. Há quem opte pelo restaurante já reservado, mesmo ali em frente ao Casino, e há quem prefira os sabores asiáticos do sushi. O ambiente ao almoço é calmo, não fosse o primeiro descanso que alguns roadies e técnicos têm desde bem cedo, quando chegaram ao local para montar equipamento. Há quem ponha a conversa em dia, quem discuta as notícias ou que pedra comprar para o balcão de cozinha lá de casa. À primeira vista, ninguém diria que se trata dos músicos que mais logo farão a festa ali no edifício da frente, mas há sempre quem repare. O Sr. António, o Sr. Fernando e o Sr. Mário conheceram-se na noite anterior e tinham-se divertido tanto que foram ficando pelo dia fora. Ao saberem da presença d’Os Azeitonas ali tão perto, foram buscar uma guitarra e apresentaram-se. Na esplanada, a afinidade fez-se sentir de imediato e, entre whisky e moscatel, músicos e roadies foram cantando e tocando com os seus novos amigos pela tarde dentro, num ambiente que, a certa altura, Salsa reconheceu como «caseirinho». Afinal, o «pander» também é isto. Uma guitarra, uns copos e um grupo de amigos que se junta ali quase à beira Tejo e vai cantando canções tão distintas que vão desde o Fado vadio a Marco Paulo. A certa altura, alguém comenta «mas há alguma coisa melhor que isto?» Realmente, é difícil discordar.

No Arena Lounge os ânimos vão aquecendo. Na plateia, poucos são os que não dançam e cantam “Quem És Tu Miúda”, aquela que foi a primeira canção do grupo a ter um forte impacto mediático. Impacto esse que ainda se faz sentir num espectáculo d’Os Azeitonas. A meio, Marlon divide o público em três para um exercício de cantoria sempre divertido («mi-ú-da», gritam os três “pisos” de plateia do casino) e, a cada refrão, os três meninos dos sopros juntam-se a Salsa para formarem um coro que prima pela boa disposição. Como explicava Rui Pedro Silva (trompete) minutos antes de subir ao palco: «além da parte da questão óbvia musical que temos [Hornsters], temos também um papel performativo. Entramos directamente no espectáculo». Quem está deste lado não fica indiferente e é notória a diversão e bom ambiente que se vive em palco. «Dizem que isso passa para o público, que as pessoas sentem essa amizade e isso é importantíssimo», explica Marlon. Não só é importante a diversão em palco como a transparência entre banda e público. Aliás, como comenta Salsa, «[isto] podia ser um um trabalho de “cumprir a função”, como se diz. Nós não queremos fazer isso. Nunca cumprimos a função, fazemos sempre disto aqui um gozo.» E porque o gozo vem também muitas vezes da partilha e do desafio, hoje, noite final de tournée, não poderia faltar uma pequena surpresa. “Suspicious Minds”, tema de Elvis Presley, é alvo de uma versão que conta com uma voz extra. Pedro Tatanka (The Black Mamba), apresentado como um «grande amigo» por Marlon, veio dar um toque de soul essencial ao tema.

Na esplanada do restaurante, podiam ter esgotado as canções, mas ainda havia muitas histórias para contar. E a noite que entretanto caiu convidava a ambientes mais acolhedores. O jantar foi servido às 20h30, desta vez para toda a comitiva. Pelas 22h, Miguel Sarmento, tour manager, apressa os que ainda estão à mesa: «pessoal, está na hora». Poucos minutos depois, já nos camarins do Casino, o alvoroço é controlado. Porque por muito que os camarins sejam todos diferentes acabam por ser todos iguais e por muitas semanas que tenham passado desde o último concerto, a rotina é sempre a mesma. Vestem-se os fatos, calçam-se os sapatos. Nena dá os últimos retoques na maquilhagem. À indicação do técnico da casa, os onze músicos seguem acompanhados pelos roadies a caminho do 41º espectáculo do ano.

Meia noite em ponto e, após uma muito energética “Ray-Dee-Oh”, Salsa e AJ regressam do encore, e logo de seguida é apresentada a última música do alinhamento. A canção escolhida é “Angelus”, escrita em homenagem ao autocarro que os acompanha em tournée e cantada, verso a verso, por cada um dos músicos presentes em palco, apenas acompanhada pelo piano de Salsa. O público rapidamente se apercebe do significado do momento, que acaba por se tornar muito especial. Já depois do concerto, Pedro Barbosa, manager d’Os Azeitonas, contava que a aposta em “Angelus” naquele momento era algo arriscada: «estávamos a experimentar tocar uma música que é muito nossa, muito íntima, muito do nosso público, dos nossos fãs. Era extremamente arriscado fazê-lo, mas foi dos momentos altos do concerto, se não mesmo o momento alto do concerto».

Terminado o espectáculo, os músicos voltam aos camarins para mais uma boa dose do tão essencial convívio. Entre cervejas, comenta-se o concerto. Correu bem, estava muita gente, o som estava estranho. Pedro Barbosa, no entanto, não hesitou em considerá-lo, ainda que a quente, um ponto alto da tournée, pela sua singularidade: «foi um concerto em moldes completamente diferentes do habitual e acho que a banda se adaptou fortemente àquilo que era o desafio e acho que o venceu.» Prova disso é o facto de ter sido, até então, a noite de Arena Live mais concorrida do ano. Um final muito feliz de uma tournée que acabou por cimentar ainda mais Os Azeitonas no panorama musical nacional, ao contrário do que alguns poderiam esperar. «Todos os vaticínios dos grande especialistas do meio diziam que este ano ia ser mais fraco, mas o que é facto é que foi o melhor de todos», comentou AJ, já depois do concerto. Para tão consistente sucesso, Pedro Barbosa arranja explicação: «não teríamos chegado ao patamar onde estamos sem esse elemento [o autocarro] que nesta banda é, de facto, fundamental.» A importância da pequena casa com rodinhas traduz-se na transformação de Os Azeitonas, que vai desde banda de quatro elementos até à família numerosa à qual todos gostam de regressar.

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