bons sons

kit de boas-vindas. inclui mapa, horário e leque improvisado.
kit de boas-vindas. inclui mapa, horário e leque improvisado.

antes de mais, breve explicação: o bons sons é um festival realizado na aldeia de cem soldos (tomar). toda a produção é feita por habitantes da aldeia, em regime de voluntariado. a organização está a cargo do sport clube operário de cem soldos (scocs). é um festival bienal de música portuguesa que abrange vários géneros de música (da tradicional à electrónica) e, este ano, contou com 55 concertos espalhados por 8 palcos. o recinto é toda a aldeia, que se fecha durante os quatro dias de festival, daí o mote “vem viver a aldeia”.

13 de agosto

na verdade, a aventura começou no dia 12, quando me meti num autocarro para rio maior com a gigante tenda e restante tralha necessária para cinco dias de campismo. seguiu-se uma ida ao continente com a filipa para as últimas compras. dia 13 arrancámos cedinho para cem soldos, onde chegámos pelas 10h30 da manhã. encontrar o campismo não foi fácil, tendo em conta que, apesar de haver bastante sinalização não havia identificação propriamente dita. mas lá encontrámos o sítio e montámos barraca. numa das vezes em que a filipa foi buscar coisas ao carro, trouxe a raquel com ela também. tinha chegado depois de uma viagem de comboio até tomar e mais uma de transfer até à aldeia que, durante os próximos cinco dias, foi o nosso resort de férias.  depois de tudo montado e arrumado, almoçámos antes de irmos para um passeio de reconhecimento do recinto do melhor festival de música portuguesa.

deu para perceber que ainda estava muita coisa a ser montada. é fácil perceber porquê. o recinto do festival é a aldeia, e as pessoas que lá vivem provavelmente dispensam ter bancas da sagres ou grandes palcos montados à beira de casa ou a cortar o caminho para o café se ainda não são necessários. havia várias bancas improvisadas a serem montadas, umas com gin e cocktails outras só de cerveja, outras para trocar euros por soldos (coisa que não correu nada bem). a maior era a de merch com tixas, t-shirts, sweats, discos, canecas… e cartazes. tinham uns cartazes com puns tipo “mãe, tou cem soldos” ou coisas tipo “serei a louca?” e o melhor: “in tixa we trust”. genial! quero um. ah, não, é só para tirar fotografia. ora bolas… então… vou ter de imitar. a senhora riu-se. ainda encontrámos o scocs (onde poderíamos carregar telemóveis) e… a fnac. reconhecidos os palcos e procurados (e encontrados) o mini-mercado e a mercearia, voltámos para a tenda.

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passámos a tarde a jogar às cartas até ao jantar. depois fomos para a zona à porta do campismo,  para sermos então “recebidas” oficialmente. nós, e todos os campistas que já tinham chegado. holy nothing foram uma boa surpresa, apesar de não serem muito a minha praia. talvez tivesse apreciado mais o concerto deles se não estivesse imenso frio, e eu não estivesse tão cansada. ainda ficámos para os bons rapazes na esperança de ver o alvim que… não apareceu. adormecemos com o puntz-a-pum ainda a bombar.

holy nothing
holy nothing

14 de agosto

agora sim, começava o festival. saímos pouco depois de almoço para apanharmos o filme de tiago pereira, às 14h. só que não. na entrada das hortas estava uma interminável fila para trocar os bilhetes por pulseiras. tarefa que era efectuada por dois cem soldenses (como tudo o resto no festival) que não pareciam ter muita pressa. perdemos o filme, e ganhámos uma nada agradável hora ao sol. assim que entrámos fomos para a porta da igreja. era aí o concerto dos vira casaca. meninos de santarém que fazem “rock n’roll folclórico” com letras tão certeiras como hilariantes. o concerto é uma festa, mesmo com o calor e com um baixista sentado de pé partido (?). e para ajudar, o vocalista dos capitães da areia traz uma pistola de água e inicia um duelo com uma rapariga da plateia, também ela munida de um borrifador. quem ganhou? nós, público cheio de calor. e em particular eu e filipa que a certa altura demos por nós entre os dois combatentes. começou bem.

vira casaca
vira casaca

durante a tarde havia uma equipa de voluntários que se passeavam pela aldeia a borrifar pessoas com água. ora com borrifadores normais ora com daquelas coisas de se pôr às costas, tipo agricultor. pode parecer parvo mas com o calor que estava sabia muito bem. a moda pegou e, como havia borrifadores à venda, muita gente aproveitava para ir borrifando quem passava (uma criança às cavalitas com um borrifador na mão é uma excelente ideia).

seguiu-se o ciclo preparatório, no mesmo palco. um dos grupos que mais queria ver no bons sons. e não é que tenham desiludido, mas a verdade é que o ambiente criado no disco não passa para o concerto ao vivo. provavelmente por causa das vozes. mesmo assim, gostei de os ouvir. talvez num concerto mais íntimo soe melhor.

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ciclo preparatório

como tínhamos algum tempo para queimar antes do concerto seguinte fomos passear pela aldeia. encontrámos o “restaurante tradicional” onde havia sopa. a filipa e a raquel aproveitaram o creme de legumes e seguimos para a eira onde já tocava a primeira dose de azáfama: cachupa psicadélica + capitão capitão + vitorino voador. quando chegámos estava na vez de capitão capitão e durante o pouco tempo que por lá estivemos não ficámos impressionadas.

como o frio apertava, fomos à tenda buscar agasalhos e comer qualquer coisa. chegámos pouquinho antes das 21h ao palco giacometti onde já muita gente esperava sentada o concerto de jp simões. mais um concerto para o qual estava bastante curiosa e apesar de não ter sido fantástico, foi muito bom. a qualidade das músicas é inegável, a genialidade das letras idem, mas acho que aquilo de que mais gostei foi mesmo o sentido de humor (“esta é uma música que escrevi em inglês, para tentar passar nas rádios portuguesas”).

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jp simões

seguimos depois para o largo principal da aldeia (largo do rossio) onde estava o palco lopes-graça/aguardela. era noite de prémios megafone, ou seja, de homenagem redobrada ao grande joão aguardela. os primeiros de três finalistas a subirem ao palco foram os nó d’alma que nos aborreceram um bocado (uma guitarra portuguesa e um dj, a sério?). seguiu-se omiri e aí a coisa animou. um só em palco entre vários instrumentos tradicionais com samples de vários vídeos recolhidos pela MPAGDP com pormenores deliciosos.

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omiri

os charanga trouxeram um espectáculo menos experimental e mais teatral (e mais engraçado, também). acabaram por ser os vencedores de um prémio com pessoas muito fixes como júri (se está lá o jorge cruz…).

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charanga

terminada a entrega dos prémios, corri para a zona em frente à igreja à procura delas. era a vez d’os capitães da areia. banda liderada por um ex-escsiano que muito me surpreendeu. o que já havia ouvido em casa não me dizia nada, mas ao vivo adorei. deram um dos melhores e mais animados concertos do bons sons, mesmo tendo tocado maioritariamente temas do próximo disco. houve crowdsurfing e tudo. durante uma horinha, não tivemos frio nenhum (and that’s saying something, tendo em conta o frio que fez naquela noite). mortinhas de frio e cansaço, voltámos para a tenda, onde adormecemos a ouvir os grandes galandum galundaina.

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os capitães da areia

15 de agosto

em termos de cartaz, era o melhor dia do bons sons. e não desiludiu nem um bocadinho. começou com as anarchicks na eira. chegámos já lá para o fim mas vi o suficiente para me convencer de que prefiro a versão disco. ou se calhar não estava com a disposição certa para um concerto delas naquele dia. ainda assim, valeu pela helter skelter.

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anarchicks

de volta ao largo do rossio desta vez ouvimos folk americano (mais country, na verdade) pela mão dos nobody’s bizness que só por terem um disco chamado donkey já me tinham conquistado. não sou grande apreciadora do estilo de música mas foi um daqueles concertos em que calha tudo bem (mesmo que haja cordas partidas em palco): o calor, o ambiente, a luz, o sítio, o chapelinho de palha… parece que tudo bate certo com a música que estamos a ouvir. só por isso, foi muito bom.

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nobody’s bizness

quando soube que os long way to alaska tiveram de cancelar a ida ao bons sons fiquei triste, mas há que ser honesta: o buraquinho no horário calhou mesmo bem para uma ida à tenda buscar agasalho. é que, em cem soldos, faz um calor tremendo pela tarde, daquele calor sem brisa em que nem dá para estar parado nem para mexer. mas à noite, vem o vento e o frio e a coisa fica muito agreste. por isso a raquel voltava sempre de toalha na mão para a noite na aldeia, é que nenhuma de nós foi preparada para tamanha mudança de temperatura.

tínhamos planeado jantar pizza durante gisela joão, já que o concerto era mesmo mesmo ao lado da barraca da pizza. só que a afluência deve ter sido tanta que quando chegámos ao giacometti já só encontrámos um samuel úria solitário a testar som. o concerto da gisela tinha sido mudado para a eira, e nós ficámos à espera da pizza tanto tempo que quando a acabámos de comer e chegámos à eira já só apanhámos uma música e meia. fiquei muito triste por perder gisela joão mas vejamos o lado positivo da coisa: 1) jantei pizza 2) comprei o these new countries e o nem lhe tocava na fnac 3) arranjei cartão para o meu cartaz (yay caixa da pizza).

pouco depois, no lopes-graça, subiam ao palco os brass wires orchestra. não lhes dava muito valor (são os mumford portugueses, com tudo o que isso tem de bom e de mau) e surpreenderam-me imenso. chamo-lhe música de encher o coração não sei bem porquê. a culpa deve ser dos metais. saxofones e trompetes com melodias triunfantes fazem-te sentir bem quase de imediato. depois os meninos ainda pedem que abraces as pessoas ao teu lado e de uma maneira meio pirosa meio fofa estás abraçada às tuas amigas com música bonita e feliz por fundo e quando dás por ti tens um sorriso super parvo na cara. passou num instante, e nós também saímos um pouquinho mais cedo.

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brass wires orchestra

é que logo logo a seguir era a vez do grande samuel úria subir ao palco giacometti, e nós queríamos estar bem lá à frente. dito e feito. nunca o tinha visto completamente a solo. só ele, um microfone e três guitarras em palco foram suficientes para um grande concerto. da nova para ninguém à velhinha ovelha perdida (passando por velhas glórias), houve um pouquinho de tudo. é um bocado impossível não ficar indiferente àquele sorriso de quando ele se apercebe de que as pessoas estão a cantar as letras (quase) todas. especialmente quando és uma dessas pessoas. samuel úria é o melhor escritor de canções que a nova geração tem para oferecer, e arrisca-se seriamente a ser um dos melhores que o nosso país já viu. mas isso são outras conversas para outros dias. o concerto foi magnífico.

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samuel úria

no final, mandou-nos todos ir correr para a eira ver a capicua. só por acaso, foi mesmo isso que fizemos. a eira voltou a encher, mas a grande maioria das pessoas não se envolveu no concerto (chamemos-lhe o “efeito vayorken”). queria muito muito ver capicua e não pude viver o concerto como queria porque estava rodeada de grupos a conversar e idiotas a gozar e mandar bocas (porque se fosse um gajo em palco de certeza que ia ser igual, né?). continuo a achá-la uma R A I N H A porque alfazema ❤ (“não vou cumprir com a puta da expectativa, não é para ela que oriento a minha vida”).

já estávamos todas mortinhas mortinhas mas eu não podia ir embora sem ver pelo menos um pouquinho de gaiteiros de lisboa. não aguentei muito, ouvi o resto a caminho da tenda. pela segunda noite, adormeci a ouvir gaitas.

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gaiteiros de lisboa

16 de agosto

o dia mais fraco. serviu para descansar os pés e descobrir um pouco melhor a aldeia.

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a vista da nossa suite presidencial.

estava um calor desgraçado. mas mesmo terrível. e o primeiro concerto no nosso horário era só às 18h. ou seja, ficámos a morrer na tenda toda a tarde. aproveitei e fiz o cartaz. quando finalmente subimos à aldeia para ver os irmãos norberto e joão lobo, o calor ainda não dava tréguas. ficámos sentadas na varandinha do scocs a tentar não derreter. missão impossível.

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norberto lobo + joão lobo

pouco depois era a vez dos guta naki no largo. felizmente ficámos à sombra e o calor começou a perder força. o concerto em si não impressionou, mas passou-se bem. foi o último concerto deles, o que é um bocado triste.

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guta naki

fomos jantar ao porco no espeto, na eira, e por lá tocavam os osso vaidoso. honestamente, não me lembro de grande coisa, excepto de que enquanto lá estivemos cantaram poemas de cesariny.

aproveitámos o tempo entre concertos para irmos espreitar o centro de exposições. este ano havia exposição de uma artista caldense (caldas represent!) e da one and only rita carmo. depois fomos descobrir uma das saídas da aldeia e encontrámos um café que tinha bifana no caco e azinhas (!!), combinámos logo que seria ali o jantar do dia seguinte.

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noiserv

às 22h havia senhor david santos aka noiserv no giacometti, que foi pequeno demais para tanto público. enquanto esperávamos no meio de imensa gente sentada, um grupo começou a cantar a paixão, do rui veloso, e de repente estava tudo a cantar. foi fofo. pouco depois o mesmo grupo levantou-se e cantou o menina estás à janela a umas raparigas que viam o concerto de uma janela de uma das muitas casas vizinhas do palco. o concerto do noiserv foi muito bom, mas continuo a achar que em festival não funciona muito bem. num auditório, com as pessoas sentadas, aí sim. o perfeccionismo do senhor david também não ajuda ao espectáculo. primeiro, o microfone (ou o cabo?) não está bom e há que mudá-lo, depois, as palmas não podem ser ainda naquela parte porque é preciso gravar a primeira guitarra e as palmas estão ligeiramente fora de tempo e coiso e tal. entre risos e pedidos de desculpa lá se vai passando um concerto bonito. depois seguimos para a eira ver os meninos los waves (caldas represent!). fiquei fã. não conhecia nada, mas a filipa garantia que era fixe. e se é. vai do rock ao pop ao electrónico e é fofinho. só acho que lhes falta uma bateria porque aquilo de beats gravados não dá grande pica.

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los waves

17 de agosto

o derradeiro. a tristeza de ser o último dia e a felicidade de ser o último banho de água fria.

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a vista do caminho entre campismo e aldeia.

o dia estava ainda mais quente, mas mesmo assim eu e a filipa decidimos arriscar e ir ver sopa de pedra. estava super curiosa porque no papelinho dizia que fazem versões a capella de música tradicional portuguesa. quando chegámos ao largo estava uma bela surpresa à nossa espera: chuveirinhos de água fresca. apetecia ficar por ali de baixo o resto da tarde. mas encontrámos umas cadeiras e uma sombra e por ali ficámos a ouvir o concerto. não ficámos muito convencidas, e, quando comecei a ouvir we trust lá ao fundo, optei por ir espreitar.

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largo do rossio

na eira, ficámos sentadas à sombra a ver o soundcheck daquele que era o concerto que mais queria ver em todo o festival. depois de uma rápida ida à tenda, voltámos ao mesmo spot para ver memória de peixe (mais uma vez, caldas represent!). foi muito estranho porque o baterista é novo. mesmo assim, esteve-se muito bem. final do dia na eira com cãezinhos fofinhos à nossa volta, e o baterista de vira casaca andava por lá com uma t-shirt de diabo na cruz. (porque é que isto é relevante? não sei, mas é).

como tenho amigas fixes ficámos pela eira para poder ter lugar na primeira fila em we trust. concerto lindo lindo. desta vez houve them lies. e o público aderiu super bem e as novas músicas são brutais e o meu cartaz foi parar ao palco e olhem ❤ tá? pronto.

ainda deu para ter o disquinho assinado antes de seguirmos para o spot da bifana no caco só que… já não havia. o pânico. o terror. ficámos pela bifana do senhor da sangria. e aí estava o último concerto: sérgio godinho. foi magnífico. pregou-nos um susto do caraças quando caiu, mas ainda assim deu um grande concerto. a certa altura, apercebi-me que o sérgio godinho é como um velho amigo de família que tocava lá no sótão enquanto brincávamos com playmobil. não? ora bolas, ia jurar. cantámos o primeiro dia abraçadinhas umas às outras para mais um momento piroso/fofo, só assim para acabar.

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sérgio godinho

e assim se passou aquele festival em que tens de dar um jeitinho para deixar passar a senhora que mora na casa ali ao lado, onde ouves, no primeiro dia, alguém comentar “toco aí nesse palco no domingo”, ou onde te cruzas com pessoas que viste em palco uns dias antes na fila para lavar a loiça, no campismo. foi uma experiência muito especial. cansativa e dolorosa, mas deveras bonita, ainda assim. espero voltar em 2016.

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