Dar uma aula à Blitz.

Antes de começar o meu post mal-humorado e chato, é preciso deixar algumas coisas bem claras:

1. A Blitz foi importantíssima na minha educação musical. Comprei-a praticamente todos os meses durante uns 2 ou 3 anos. Comecei a lê-la com 13 anos, acho. Foi ela que me apresentou aos grandes nomes da música internacional. Gosto também de a culpar (ainda que não totalmente) pelo facto de estar hoje a estudar jornalismo. No entanto, a Blitz raramente me apresentou à música portuguesa, por isso, tem também culpas no cartório no que toca à minha ignorância.

2. A Blitz é uma revista decente. Há pelos menos dois jornalistas de excelência na sua redacção e uma fotojornalista que dispensa qualquer apresentação. A Blitz tem meios para ser uma excelente revista de música, mas a Blitz não é uma excelente revista de música. Querem saber porquê? Atentem:

Hoje saiu esta notícia no site da Blitz.

O que é que aprendemos?
Que o Miguel Araújo é um músico português membro de uma banda chamada Os Azeitonas e que entrou hoje em estúdio para gravar o seu segundo álbum a solo depois de, no ano passado, ter lançado o seu primeiro disco – chamado Cinco Dias e Meio – onde constavam músicas como «Os Maridos das Outras» e «Fizz Limão». Ficamos também a saber que o primeiro single deste segundo álbum deverá ser lançado no início de 2014.

O que é que perguntamos?
Porque é que isto é relevante, se não sabemos mais nada sobre o disco? Vai ser diferente do primeiro? Vai ter convidados? Vai ser lançado de alguma forma hiper-mega-espectacular e revolucionar a indústria musical? Mais uma vez, se não sabemos mais nada, por que raio é que isto é relevante?

Como é que a Blitz podia responder às nossas perguntas?
Eu começaria por ir à página do Facebook do rapaz e ler os últimos posts. Tem fotos e vídeos dele em estúdio que com certeza acrescentariam mais à notícia do que o teledisco da canção que já todos ouvimos umas trezentas mil vezes o ano passado. Mais, diz-nos ele que este álbum tem banda convidada e até nos lista alguns nomes. Ora então podemos ir ver quem foi a banda que gravou o primeiro disco. Olha, nenhuma! O primeiro disco foi completamente a solo. Pumba, mais uma novidade. E olha que mais, o primeiro disco nem era para ser disco a sério, logo não teve qualquer preparação. Um scroll na página do Facebook e descobrimos que este disco teve pré-produção. E não é que já tenho mais respostas? Incrível.

Porque é que isto me irritou tanto?
Provavelmente porque hoje acordei demasiado cedo. Ou então porque não me importava nada de um dia trabalhar nesta área. Sim, trata-se de um artista que sigo mais ou menos de perto e portanto é fácil para mim apontar erros à notícia. Talvez, mas deixem-me ser tão exigente com o jornalista da Blitz como os meus professores são exigentes comigo, lá na minha escolinha onde tiro o curso de – wait for it… – jornalismo, pois. A Blitz recebeu um press release da EMI com estas informações. O senhor jornalista fez copy paste, contextualizou a coisa (relembrou-nos de que o Miguel Araújo é “o gajo dos Maridos das Outras”, fair enough), pôs o teledisco e pronto, está feito. E é isto que me irrita. Não se dão ao trabalho. Querem-me convencer que o senhor está muito ocupado a escrever artigos sobre a nova peruca da Lady Gaga? (Passem 5 minutos no site da Blitz e perceberão porque falo nisto) Não me convencem. Primeiro, porque ele não tem nada que escrever sobre as perucas da Lady Gaga e mesmo que tivesse, isso nunca lhe deveria roubar tempo a escrever sobre música e ainda por cima música portuguesa. É que já é tão raro encontrar música portuguesa na Blitz…

Porque é que isto é notícia desta maneira e não houve reportagem dos concertos d’Os Azeitonas nos Coliseus?
Sim, lá estou eu a bater na mesma tecla. Mas perdoem-me, acho que tenho uma pontinha de razão. Um membro d’Os Azeitonas entra em estúdio para gravar o segundo disco a solo e é notícia. Não há música nova nem nada. É só isto, e só isto é notícia. Mas uma das melhores bandas pop deste país (e foi a Blitz que o disse, há uns meses aquando o lançamento do último disco deles), depois de 11 anos de carreira estreia-se finalmente nas mais nobres salas de concerto do país e: 1. esgota-as; 2. leva mais de 40 músicos ao palco (entre big, band, fanfarra, quartetos de corda, grupos de clarinetes(?!), etc); 3. tem um cenário super arrojado (coisa que não vemos muitos outros artistas em Portugal a fazer…); 4. acaba o concerto a juntar os músicos todos e a sair Coliseus fora e a tocar pelas ruas da cidade durante mais uns 20 minutos. Isto para não falar na qualidade músical, ou nas surpresas dos fãs que tornaram os concertos ainda mais especiais e que, mais uma vez, não se vêem todos os dias muito menos com artistas portugueses. Mas sobre os concertos a Blitz nem ai nem ui. Porquê? Com certeza que foram convidados pela editora a assistir. Qual é a desculpa? Qual é o critério para o facto de um músico entrar em estúdio ser notícia mas não haver reportagem do concerto de consagração da banda desse mesmo músico nos Coliseus?

Quem escreveu a notícia é, assim só por acaso, um dos dois jornalistas que eu ingenuamente considero de excelência no panorama do jornalismo musical em Portugal. Não sei se isto é relevante ou não. Volto a frisar que hoje acordei demasiado cedo. E provavelmente estou a exagerar. Porque eu sei que é assim que a coisas funcionam, eu sei que hoje em dia é tudo copy paste e que o jornalismo está perdido e blá blá blá. Eu sei. Mas deixem-me ficar zangada com esse facto. E, sobretudo, deixem-me acreditar que eu conseguia (e conseguirei) fazer melhor.

(E isto foi mais uma grande birra para com os estado das coisas no jornalismo musical português do que uma birra sobre a falta de atenção dada aos meus queridos Azeitonas. Deixem-me só frisar isso também.)

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